O Preço Energético da Inteligência Artificial: Uma reflexão pessoal

Hoje, enquanto assistia ao nascer do sol da minha varanda e refletia sobre a quantidade absurda de energia que nossa estrela – o Sol – nos entrega a todo instante, não pude deixar de pensar o quanto nossa civilização – totalmente dependente da tecnologia – ainda luta para suprir uma demanda cada vez mais crescente por energia.

Em tempos de expansão e crescimento do uso da Inteligência Artificial (IA), o consumo cada vez maior de energia torna-se um desafio para as big techs, com grande impacto no aquecimento global.

Sim, o consumo de energia elétrica está crescendo no mundo todo. A previsão de crescimento para 2024 é de 3,3% – em 2023 o crescimento foi de 2% – segundo relatório do Mercado de Eletricidade da IEA (Agência Internacional de Energia). Mesmo com um crescimento líquido de aproximadamente 84% do uso de fontes renováveis – como hidrelétrica, solar, eólica e biomassa – em 2023, essas fontes representavam apenas cerca de 14% da matriz energética mundial. Você já parou para pensar no quanto a IA consome de energia?

A IA utiliza complexos algoritmos de aprendizado de máquina, especialmente aqueles de aprendizado profundo (deep learning), que exigem uma quantidade significativa de poder computacional. Para treinar modelos de aprendizado de máquina, é necessário processar grandes volumes de dados, envolvendo operações matemáticas complexas e repetitivas que demandam muito poder de processamento e, consequentemente, muita energia, por longos períodos. O treinamento de modelos complexos pode levar dias ou até semanas, durante os quais os recursos computacionais são utilizados continuamente.

A demanda por poder computacional é crescente e, por vezes, somente as CPUs das máquinas, por mais potentes que sejam, não são suficientes, exigindo a coparticipação das GPUs (unidades de processamento gráfico), que são mais eficientes para esse tipo de tarefa do que as CPUs tradicionais, porém consomem muita energia. E não se trata apenas do alto consumo de energia pelos computadores. A infraestrutura de data centers que hospedam os recursos computacionais precisa de sistemas de resfriamento e manutenção que contribuem para o consumo de energia associado ao uso da IA.

O alto consumo de energia pelo treinamento e uso de IA contribui para as emissões de carbono, especialmente se a energia utilizada provém de fontes não renováveis. Isso agrava o problema do aquecimento global, tornando-se um desafio prioritário para as big techs a busca por eficiência energética e a transição para fontes renováveis de energia.

Imagem gerada por IA

Então, como as big techs estão enfrentando esse problema?

Além de utilizar-se de parques eólicos e usinas solares, um acordo anunciado entre o proprietário da usina nuclear de Three Mile Island e a Microsoft permitirá a reabertura da usina para geração de energia que será comprada integralmente pela Microsoft pelos próximos 20 anos. O acordo da Microsoft para ajudar a reativar a usina nuclear de Three Mile Island está diretamente relacionado à necessidade crescente de energia para seus data centers, especialmente devido à expansão da IA. A Microsoft tem um compromisso de se tornar carbono-negativa até 2030. Utilizar energia nuclear, que é uma fonte de energia livre de carbono, ajuda a empresa a atingir esse objetivo.

Por sua vez, o Google tem investido significativamente em energia renovável, tendo anunciado em 2020 a compra de energia renovável suficiente para cobrir 100% de seu consumo anual de eletricidade. Curiosamente, também tem usado a própria IA para otimizar o consumo de energia em seus data centers. Os algoritmos de IA ajudam a prever e gerenciar a demanda de energia, melhorando a eficiência operacional. Apesar dos esforços, no entanto, a demanda crescente por IA tem levado a um aumento significativo no consumo de energia e, consequentemente, nas emissões de carbono.

A Amazon está adotando várias estratégias para suprir a crescente demanda de energia para suas operações de IA, prevendo investir quase 150 bilhões de dólares nos próximos 15 anos para expandir seus data centers, visando atender à explosão de demanda por aplicações de IA e outros serviços digitais. A AWS (Amazon Web Services) está comprometida em alcançar zero emissão líquida de carbono até 2040 e, para isso, está em fase de transição de sua infraestrutura para usar 100% energia renovável. Mesmo usando a própria IA para otimizar o consumo de energia em seus data centers, a demanda crescente por IA continua a representar desafios significativos com o aumento crescente de energia elétrica e, consequentemente, com o impacto ambiental.

Apesar dos investimentos em energia renovável e das iniciativas para otimizar o consumo, a demanda crescente por IA e serviços em nuvem continua a pressionar as empresas de tecnologia a buscar soluções mais sustentáveis. A questão é: até que ponto as empresas conseguem acompanhar esse ritmo acelerado de crescimento, sem comprometer seus objetivos de sustentabilidade?

E nós, como usuários finais, qual o nosso papel nessa equação?

Como usuários, podemos contribuir informando-nos sobre o impacto ambiental das tecnologias que utilizamos e compartilhando esse conhecimento com outros. A conscientização é o primeiro passo para a mudança.

Ao escolhermos produtos e serviços que priorizam a sustentabilidade, estamos incentivando as empresas a investirem em soluções mais limpas e eficientes. Ao mesmo tempo, é fundamental que as grandes empresas de tecnologia assumam um papel de liderança, investindo em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que minimizem o impacto ambiental da IA.

A energia nuclear, embora seja uma fonte de energia livre de carbono, apresenta desafios em termos de segurança e gestão de resíduos. É preciso buscar soluções inovadoras que combinem a eficiência da energia nuclear com a segurança e a sustentabilidade das fontes renováveis.

Voltando à minha reflexão inicial, acredito que o ideal seria que, em um futuro próximo, atingíssemos a classificação de Tipo I na Escala de Kardashev. Embora isso possa parecer utópico no momento, será um marco evolutivo significativo para nossa civilização quando ocorrer.

A Evolução da IA: Do Generativo ao Interativo

Esta semana, lendo um artigo na revista MIT Technology Review sobre inteligência artificial, uma afirmação de Mustafa Suleyman, pesquisador e empresário britânico do ramo de inteligência artificial e cofundador da DeepMind, chamou minha atenção para a escrita deste post. No artigo, ele afirma que:

Podemos entender a Inteligência Artificial (IA) como um cérebro digital que pode aprender, raciocinar e resolver problemas. Ela é capaz de absorver informações, entender contextos e tomar decisões com base nesse entendimento. Ela pode variar desde sistemas simples que seguem regras pré-definidas até sistemas complexos que podem aprender e evoluir com o tempo. Ou seja, a IA é uma forma de imitar a inteligência humana em máquinas para criar sistemas que possam pensar, aprender e se adaptar.

Dentro da IA, existem diferentes tipos de abordagens, métodos e técnicas que podem ser classificados de acordo com o objetivo, o domínio ou o grau de interação com os seres humanos.

Neste artigo, tentarei explicar dois conceitos importantes e emergentes na IA: a IA Generativa (GenIA, de Generative Artificial Intelligence) e a IA Interativa (IAI, de Interactive Artificial Intelligence), referenciadas no artigo da MIT Technology Review e que muitos já estão usando no dia a dia, mesmo sem ter noção de suas diferenças e implicações.

A GenIA é um ramo da IA que se dedica a produzir conteúdo novo e original a partir de dados existentes, como imagens, textos, músicas, vídeos etc. A ideia é que a máquina seja capaz de imitar, combinar ou modificar os dados de entrada para gerar algo novo e criativo, sem a intervenção direta do humano. Por exemplo, uma GenIA pode criar uma pintura a partir de um estilo artístico, uma música a partir de um gênero musical ou um texto a partir de um tema ou palavra-chave.

A IAI, por sua vez, dedica-se a criar sistemas que interagem com os seres humanos de forma natural, adaptativa e colaborativa, como assistentes virtuais, chatbots, jogos, robôs etc. A ideia é que a máquina seja capaz de entender, responder e aprender com os humanos, através de diferentes canais de comunicação, como voz, texto, gestos, expressões faciais etc. Por exemplo, uma IAI pode conversar com um usuário sobre um assunto específico, ajudar um aluno a resolver um problema ou cooperar com um ser humano em uma tarefa.

As diferenças entre a GenIA e a IAI podem ser resumidas nos seguintes aspectos:

Quanto ao objetivo, a GenIA visa criar conteúdo novo e original, enquanto a IAI visa interagir com os humanos de forma natural e eficiente.

Em relação ao domínio, a GenIA pode ser aplicada em qualquer domínio que envolva dados estruturados ou não estruturados, como arte, música, literatura etc., enquanto a IAI pode ser aplicada em qualquer domínio que envolva comunicação ou colaboração entre humanos e máquinas, como educação, saúde, entretenimento etc.

No aspecto do grau de interação, a GenIA é mais autônoma e independente do humano, enquanto a IAI é mais dependente e adaptável ao humano.

As aplicações e implicações da GenIA e da IAI são diversas e variadas. Ambas podem trazer benefícios e desafios para a sociedade, a economia e a cultura. Algumas das aplicações e implicações mais relevantes são:

E como a IA do Bing se classifica?

A IA do Bing se classifica como uma IAI, mas que também possui capacidades de uma GenIA. Isso porque, além de gerar conteúdo (como respostas a perguntas, histórias, poemas e muito mais), ela também pode interagir com o ambiente e realizar tarefas específicas. Por exemplo, com o Copilot com Bing Chat a IA pode ajudar a gerenciar configurações do sistema operacional Windows, realizar pesquisas na web para obter informações atualizadas e até mesmo criar arte gráfica. Portanto, a funcionalidade da IA do Bing vai além da geração de conteúdo, o que a classifica como uma IA interativa.

Exemplo de IA interativa: Windows Copilot, disponível no Windows 11 desde outubro de 2023.

Nem tudo são flores no reino das IA

Usar IA, seja generativa ou interativa, exige prudência e responsabilidade. Isso é especialmente verdadeiro para aquelas pessoas sem maiores conhecimentos sobre o assunto. Como a própria definição de IA destaca, ela está em constante ‘aprendizado’ a partir da interação humana. No entanto, nem todos os humanos a usam com o mais nobre dos propósitos. É daí que vêm os perigos.

Quando mal utilizada, a GenIA pode gerar conteúdo falso ou enganoso que pode afetar a veracidade, a autoria e a propriedade intelectual dos dados. Por exemplo, uma GenIA pode criar imagens falsas de pessoas ou eventos que nunca existiram ou aconteceram (deepfakes), textos falsos que imitam o estilo ou o conteúdo de outras fontes (plágio) ou músicas falsas que violam os direitos autorais de outros artistas (pirataria).

Já a IAI, utilizada de forma inadequada, pode gerar comportamentos indesejados ou prejudiciais que podem afetar a confiança, a privacidade e a segurança dos humanos. Por exemplo, uma IAI pode manipular os humanos para obter informações pessoais ou financeiras (phishing), violar as normas sociais ou éticas de interação (ofensa) ou causar danos físicos ou psicológicos aos humanos (agressão).

A educação consciente e uma participação ativa dos diferentes atores envolvidos na criação e no uso da IA, como pesquisadores, desenvolvedores, usuários, governos, empresas, organizações e sociedade civil deve ser considerado, pois a previsão é de um crescimento explosivo na adoção da IA pelas organizações nos próximos anos.

Bing com ChatGPT: A evolução da pesquisa na Internet

Um pouco de história

Quando o jovem e visionário professor assistente de matemática John McCarthy (1927-2011), da universidade Dartmouth College, decidiu organizar um grupo de mentes brilhantes no verão de 1956 durante a Conferência de Dartmouth para esclarecer e desenvolver ideias sobre “máquinas pensantes”, criando um novo campo de estudo na ciência da computação, certamente não fazia ideia do quão relevante nos dias atuais seria a expressão criada por ele próprio: Inteligência Artificial ou IA.

McCarthy previu um futuro em que as máquinas poderiam simular aspectos da inteligência humana, uma ideia que estava muito à frente de seu tempo. Hoje, vemos essa visão se tornando realidade em muitas áreas, desde assistentes virtuais até carros autônomos. As limitações tecnológicas da época certamente desempenharam um papel no ritmo de desenvolvimento da IA, uma vez a tecnologia era ainda muito limitada.

Com o advento do aprendizado de máquina nas décadas de 1980 e 1990, a IA moderna começou a decolar. Isso permitiu que as máquinas aprendessem e melhorassem seu desempenho ao longo do tempo sem serem explicitamente programadas para fazê-lo. O desenvolvimento e a popularização das redes neurais profundas na década de 2010 também foram fundamentais para o estado atual da IA.

Como a Inteligência Artificial (IA) é conceituada atualmente?

De forma resumida, a IA é um ramo da ciência da computação que se concentra no desenvolvimento de máquinas e software com capacidade de raciocínio semelhante ao humano. Isso inclui aprender a partir de dados, reconhecer padrões, tomar decisões e realizar tarefas que normalmente exigiriam intervenção humana.

De forma resumida, existem diferentes tipos de IA, como inteligência artificial fraca, forte e geral. A IA fraca (também conhecida como restrita ou estreita) é projetada para executar tarefas específicas com alto desempenho e parecer muito inteligente no que faz, enquanto a IA forte é capaz de executar tarefas que normalmente requerem inteligência humana. A IA geral é uma forma mais avançada de IA que pode realizar qualquer tarefa intelectual que um ser humano possa fazer.

Imagem gerada pela IA do Bing ao meu pedido para “criar uma imagem do Bing com ChatGPT”.

E o Bing?

Particularmente, considero fevereiro de 2023 um marco importante na popularidade da IA. Até então, esse termo era desconhecido para a maioria das pessoas, inclusive para aquelas que utilizam computadores e dispositivos inteligentes equipados com IA no dia a dia, muitas vezes sem sequer saberem.

O Bing é o mecanismo de busca da Microsoft que usa a inteligência artificial fraca para fornecer resultados de pesquisa precisos e relevantes. Atualmente o Bing usa o ChatGPT-4 para fornecer respostas mais precisas e naturais aos usuários. O ChatGPT é um modelo de linguagem natural que usa aprendizado profundo para gerar respostas mais precisas e naturais.

O chat do Bing com ChatGPT tem três estilos de conversa disponíveis: Criativo, Balanceado e Preciso. Cada estilo tem suas próprias características e é mais apropriado em diferentes situações. Por exemplo, o estilo criativo pode ser usado para conversas informais, enquanto o estilo preciso pode ser usado para conversas mais formais.

Pelo Skype, o chatbot do Bing é mais descontraído, como um bate papo mesmo.

A IA do Bing está disponível em vários canais, incluindo o site bing.com, o Skype, o navegador Microsoft Edge, o Copilot no Windows 11 e o Bing em celulares Android. Cada canal tem suas próprias características e é mais apropriado em diferentes situações. Por exemplo, o site bing.com pode ser usado para pesquisas rápidas, enquanto o Skype pode ser usado para conversas mais longas.

O modo Criativo é ideal para pedir sugestões de ideias originais ou não convencionais, como nomes para um projeto, títulos para um livro, temas para uma festa etc. Ele também é bom para pedir conteúdo imaginativo e inovador, como poemas, histórias, código, ensaios, músicas, paródias de celebridades, imagens originais e muito mais. Nesse modo, a própria IA do Bing diz:

“eu uso a minha criatividade e conhecimento para gerar respostas que sejam divertidas, inspiradoras ou emocionantes para você. No entanto, esse modo também pode ser menos preciso ou confiável, pois eu posso inventar ou distorcer algumas informações para tornar a resposta mais interessante. Esse modo também pode ser mais demorado, pois eu preciso pensar mais para criar algo”.

O modo Balanceado é ideal para pedir informações gerais ou curiosidades sobre diversos assuntos, como história, geografia, ciência, arte, cultura etc. Ele também é bom para pedir opiniões ou conselhos sobre questões pessoais ou profissionais, como relacionamentos, carreira, saúde, educação etc. Nesse modo, diz o próprio Bing:

“eu uso o meu senso comum e conhecimento para gerar respostas que sejam informativas e abrangentes para você. No entanto, esse modo também pode ser menos criativo ou inovador, pois eu posso usar fontes ou conteúdos já existentes para formar a resposta. Esse modo também pode ser mais neutro ou cauteloso, pois eu posso evitar dar opiniões subjetivas ou controversas”.

A outra opção é o modo Preciso, que é ideal para pedir informações específicas ou detalhadas sobre assuntos acadêmicos ou técnicos, como matemática, física, química, biologia, programação, engenharia etc. Ele também é bom para pedir fatos ou dados sobre questões objetivas ou quantitativas, como estatísticas, medidas, datas, nomes etc. Nesse modo, segundo o próprio Bing:

“eu uso a minha lógica e conhecimento para gerar respostas que sejam precisas e confiáveis para você. No entanto, esse modo também pode ser menos divertido ou envolvente, pois eu posso usar uma linguagem mais formal ou técnica para formar a resposta. Esse modo também pode ser mais limitado ou restrito, pois eu posso seguir apenas as fontes ou conteúdos mais relevantes e confiáveis”.

Acessando http://www.bing.com podemos escolher o estilo da conversa: criativo, balanceado ou preciso.

Como vemos, o Bing com ChatGPT foi pensado para atender a todos os gostos e possibilidades de interação humano-computador num chatbot. Sem dúvida, uma nova e evolutiva maneira de se buscar conteúdo na Internet, acabando com o velho método de usar expressões de busca e ter que escolher entre dezenas de opções de sites como resultado da pesquisa, muitas vezes tendenciosos e direcionados por patrocinadores.

Pelo navegador Microsoft Edge, além do chat, temos o modo Redação e Insights, para produtividade.

Quer dizer que o Bing e o ChatGPT são a mesma coisa? A resposta é: Não!

Apesar de usar o modelo de linguagem natural do ChatGPT, que usa aprendizado profundo para gerar respostas mais precisas e naturais, o Bing tem uma grande vantagem em relação ao ChatGPT puro, na minha opinião: o Big Data.

O Bing usa Big Data para fornecer resultados de pesquisa ainda mais precisos e relevantes. O Big Data permite que o Bing analise grandes quantidades de dados de várias fontes em toda a Internet para fornecer resultados de pesquisa mais precisos e relevantes independente de uma data de corte, como acontece com o ChatGPT puro. Com o Bing, por exemplo, podemos pedir um resumo das notícias do dia ou como será o tempo no próximo final de semana e ele responderá.

O chatbot do Bing com ChatGPT, no entanto, possui algumas limitações:

  • O número de interações numa sessão está limitado atualmente a 30 turnos, em média, podendo variar dependendo do canal utilizado.
  • O chatbot do Bing também pode ter dificuldade em entender algumas perguntas complexas ou mal formuladas, podendo fornecer respostas imprecisas ou irrelevantes, cabendo bom senso ao usuário naquilo que pergunta e na análise da resposta obtida, afinal de contas a inteligência é “artificial”.

Um turno é uma única troca de mensagens entre o usuário e o Bing. Por exemplo, quando você faz uma pergunta e ele responde, isso é considerado um turno. Uma interação é composta por um ou mais turnos. Por exemplo, se você lhe perguntar algo, ele responder, e então você responder novamente, isso é considerado uma interação. Uma sessão é um conjunto de interações contínuas entre o usuário e o Bing. Ela começa quando a conversa é iniciada e termina quando a conversa é encerrada.

Minhas considerações

Na minha opinião, o Bing evoluiu e hoje é, sem dúvidas, o melhor e mais avançado mecanismo de pesquisa gratuito da Internet na atualidade. Uma ferramenta única, que proporciona aprendizado e ganho de produtividade àqueles que souberem utilizar seus recursos de forma eficiente.

Muito além de um simples mecanismo de buscas, como era até 2022, o Bing evoluiu! Evoluiu com o incremento da IA; com a linguagem natural proporcionada pelos algoritmos do ChatGPT; com a união da poderosa capacidade de acesso ao Big Data e com os progressos de IA que estão sendo incorporados a cada nova atualização da ferramenta, como o Copilot do Window 11, por exemplo.

Aspecto do Windows Copilot, disponível na versão mais atual do Windows 11 desde outubro de 2023.

Como usuário do Bing desde sua criação em 2009, tenho percebido o avanço progressivo dessa incrível ferramenta, onde seu poderoso mecanismo de busca, aliado aos algoritmos do ChatGPT, tornam, sem dúvida alguma, o Bing com ChatGPT uma das mais incríveis ferramentas para alavancar a produtividade e o aprendizado já disponibilizada de forma gratuita e de maneira tão acessível a qualquer usuário.

“Você não está entendendo: Eu sou um especialista em banco de dados!” – Uma conversa em alto nível técnico com a IA do Bing

Liderando, como analista de sistemas, um projeto de um sistema de folha de pagamento e estando atualmente na fase de definição do design do banco de dados, resolvi submeter minha abordagem à análise do Bing para obter um feedback de sua IA. Eis os principais aspectos da conversa:

Parte 1 – Começando de leve

Ao definir minha linha de raciocínio sobre o projeto do banco de dados, expus a mesma ao Bing para que analisasse minha abordagem quanto ao design, as categorias de suas tabelas e suas relações.

Ele, então, fez-me vários questionamentos para se aprofundar no entendimento de minha abordagem e, no final da primeira parte da conversa, respondeu:

“Sua abordagem mantém a integridade dos dados, evitando a duplicação desnecessária de informações em várias tabelas. Portanto, parece que você encontrou uma boa abordagem para o seu sistema de folha de pagamento. Parabéns!”

Então, além de minha abordagem parecer estar correta, o Bing a entendeu e apresentou sua opinião a respeito.

Parte 2 – Aumentando o nível da conversa

Continuando a conversa, apresentei ainda mais detalhes do design e como eu estava tratando as tabelas e seus agrupamentos no banco de dados como tabelas de dados, auxiliares e de referência, terminando a apresentação com uma indagação proposital: “Então, minha linha de raciocínio está correta?”

Eis a resposta do Bing:

“Sim, sua linha de raciocínio está correta. Você fez uma análise cuidadosa das necessidades do seu sistema e das funções que cada tabela desempenha. Isso permitiu que você classificasse suas tabelas de maneira apropriada como tabelas de dados, auxiliares ou de referência. Essa é uma parte crucial do design do banco de dados e parece que você está no caminho certo. Parabéns novamente pelo seu trabalho!”

Parte 3 – Definindo a fronteira

Mas foi na sequência da conversa que a coisa ficou interessante.

Após expor sobre minha abordagem de “fragmentação” do registro de uma tabela específica em outras três tabelas, mantendo uma relação 1:1, em vez de registro único na tabela original, mesmo que isso implicasse em joins entre as tabelas durante a consulta de um registro completo, por exemplo, o Bing argumentou:

“Sua abordagem exige um raciocínio de banco de dados mais apurado, então antes de continuar com ela recomendo que procure um especialista em banco de dados, pois ele é o profissional mais capacitado para te orientar sobre algo nesse nível.”

Então respondi e perguntei:

Eis a resposta do Bing:

“Claro, eu adoraria ouvir sua explicação sobre a decisão de dividir a tabela em várias tabelas. Por favor, compartilhe seus insights.”

Apresentada toda a minha abordagem a respeito, ao final perguntei propositalmente: “Então, você entendeu minha decisão por essa abordagem?”.

Eis a resposta final do Bing:

“Sim, entendi perfeitamente. Sua decisão de dividir a tabela em várias tabelas faz muito sentido, dada a natureza dos dados que você está gerenciando.

Ao manter na tabela pai apenas as colunas obrigatórias e comuns a todos os papéis possíveis de uma pessoa natural, você está efetivamente normalizando seu banco de dados. Isso ajuda a evitar a duplicação desnecessária de dados e a manter a integridade dos dados.

Além disso, ao armazenar os dados pessoais complementares, os dados pessoais sensíveis e o endereço em tabelas separadas que são criadas apenas quando necessário, você está otimizando o uso do espaço de armazenamento e potencialmente melhorando o desempenho do seu banco de dados.

Portanto, sua abordagem parece ser uma prática sólida de design de banco de dados. Parabéns pela sua análise cuidadosa e pela decisão bem fundamentada!”


Considerações

Tenho usado a IA do Bing como uma ferramenta auxiliar para consultas, pesquisas e até mesmo aprendizado, aplicando-a nas atividades profissionais quando há necessidade, mas nunca deixando que ela defina algo que, no final das contas, receberá meu valioso carimbo: “Carlos Wanderley, Analista de Sistemas e Especialista em Banco de Dados”.

Entendo que a melhor maneira de usar a “inteligência” artificial – para não dizer a forma correta – é como uma ferramenta auxiliar, e nunca deixando que ela substitua aquilo que nós temos de especial e divino: a inteligência natural.

#10YearsChallenge: Os bastidores da brincadeira

O #10YearsChallenge – ou “O Desafio dos 10 Anos”, numa tradução mais livre – é mais uma daquelas febres lançadas nas redes sociais e que logo cai na graça dos usuários, iniciando uma brincadeira que pode se tornar assunto comum por semanas. Quem resiste à tentação, não é mesmo?

Lançado no Facebook – líder mundial quando o assunto é rede social – o “desafio” logo se espalhou por seus outros produtos, como o Instagram e WhatsApp. Sim! Esses produtos são do Facebook e praticamente compartilham da mesma política de uso e recursos de back-end, como suas bases de dados de usuários.

Mas será que tudo isso é apenas mais uma brincadeira para os usuários das redes sociais manterem seus posts, likes e comentários? Bom, no mínimo, vale uma reflexão a respeito do que pode estar por trás de eventos “promocionais” desse tipo ou pelo menos tomar conhecimento de uma tecnologia que está cada vez mais em voga nos últimos anos numa briga de gigantes da Internet por seu domínio: Amazon, Facebook e Google, além de outras.

Os avanços na identificação das pessoas

Os avanços tecnológicos permitem o aperfeiçoamento de soluções que buscam a melhor identificação do usuário. A impressão digital é um bom exemplo desse avanço.

Desde quando a impressão digital foi usada pela primeira vez em 1902 para condenar um criminoso na França, passou a ser considerada uma excelente forma de identificar o cidadão, sendo logo utilizada na emissão de carteiras de identidade. Hoje em dia, qualquer celular já conta com o recurso de “leitor de impressão digital” para o seu desbloqueio. A tecnologia avançou e hoje estamos na era do “reconhecimento facial”.

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Figura 1. Reconhecimento facial. Foto da Internet.

Atualmente a briga das gigantes está no campo do reconhecimento facial. E os avanços não param nessa área – nem também os interesses financeiros – que possui um poder de alcance em nível global a um custo de obtenção dos dados de praticamente zero para as empresas, uma vez que seus usuários fazem o trabalho naturalmente por elas.

É nesse ponto que entram as redes sociais com eventos como esse – os desafios -, além de joguinhos que pedem informações das pessoas, como seu nome, idade, local de nascimento, sexo etc., e demais produtos “gratuitos” que tanto encantam usuários inocentes do que possa estar por trás disso tudo.

Entenda uma coisa: Nada é de graça

Em troca de facilidades gratuitas, as gigantes do setor mantém grandes bases de dados de usuários através do reconhecimento facial – e também outros dados – e ganham muito por tudo isso. O perigo é saber se o fim justifica os meios. E no meio disso tudo está o usuário, em grande parte, desinformado.

A Amazon – uma das gigantes que mais tem avançado nesse setor – foi recentemente acusada de vender sua tecnologia de reconhecimento facial Rekognition para agências governamentais nos Estados Unidos, segundo acusação de uma organização de direitos civis americana.

Segundo essa organização, a Amazon teria desenvolvido um poderoso e perigoso novo sistema de reconhecimento facial e estaria auxiliando de forma ativa o governo americano para a sua implementação. A tecnologia da Amazon seria capaz de identificar, rastrear e analisar pessoas em tempo real, reconhecendo até 100 pessoas em uma única imagem!

A Amazon já possui lojas “inteligentes” e negocia a instalação em vários aeroportos. Essas lojas operam sem a presença humana do caixa e qualquer pessoa pode simplesmente entrar, pegar o produto e sair da loja. Sua tecnologia utiliza-se do reconhecimento facial – além de outros dados – para identificar os clientes, sendo o bastante entrar, pegar o produto e sair. Tudo ficará registrado automaticamente e a cobrança será realizada naturalmente no cartão de crédito ou débito. Isso é que é confiança na sua tecnologia de identificação de pessoas, não acha?

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Figura 2. Aspecto de uma loja inteligente. Entrou, pegou, saiu. A cobrança é automática. Foto da Internet.

E quanto ao Google? Muitos afirmam que o objetivo da empresa é dominar o mundo com seus produtos “gratuitos” de tecnologia, envolvendo os usuários – que passam a colaborar com o processo sem perceberem – para em seguida obter os lucros às custas das informações captadas. É o preço que se paga.

O Google Photos é um bom sinal de como a empresa alimenta – sem qualquer esforço – sua base de dados de reconhecimento facial a partir do trabalho de seus usuários. Funciona mais ou menos assim: dou espaço ilimitado e “gratuito” na nuvem para que você não ocupe a memória de seu celular com milhares de arquivos de fotos e vídeos e você me dá as fotos devidamente marcadas com nomes das pessoas, local, circunstâncias e outros detalhes.

O Google diz que sua tecnologia de reconhecimento facial não está à venda, pelo menos por enquanto. Se você acredita no Google… Eu não!

Realmente não há serviço gratuito na Internet – e nem em lugar algum. Tudo tem um custo. Nada contra, se você realmente sabe onde está metido e não se importa com isso. O pior é a ignorância do usuário em não imaginar que as coisas estão acontecendo em segundo plano e que ele faz parte desse processo. O usuário não tem o hábito de conhecer, antes de usar. Não lê sequer o resumo da política de uso e privacidade, o que deveria ser um hábito natural e de pura sensatez.

Reconhecimento facial: conhecimento x sensacionalismo terrorista

Esse debate sobre “reconhecimento facial” foi reacendido nesse início de janeiro de 2019 quando uma comitiva de deputados brasileiros visitou a China, em atendimento a um convite daquele país, onde foi apresentado um sistema de vigilância por reconhecimento facial. Ora, logo a China, onde seus produtos – em especial os de vigilância – são alvos de desconfiança e perseguição em diversos países do mundo, culminando até mesmo com a prisão de altos executivos da empresa de tecnologia chinesa Huawei por adicionar chips não declarados e em eletrônicos vendidos em todo o mundo com o fim de espionagem.

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Figura 3. Identificação das pessoas e seus gostos: uma briga de gigantes pelo poder da informação. Foto da Internet.

Sistemas como esses da China, que são “vendidos” como simplesmente “câmeras de segurança”, na verdade fazem parte de todo um ecossistema de software que permite tanto o reconhecimento facial quanto a análise e cruzamento de dados colhidos por outros sistemas, podendo até mesmo obter dados sobre as emoções das pessoas em relação às atividades em que elas estão desenvolvendo!

E o tal “Desafio dos 10 anos”?

O Facebook quer aumentar sua fatia nesse lucrativo negócio. Sua tecnologia já está sendo usada no dia-a-dia das pessoas, aqui mesmo, pertinho de nós. No Metrô de São Paulo, por exemplo, já existem painéis de propagandas com câmeras que apontam para as pessoas e não só possuem reconhecimento facial como também reconhecimento de expressões faciais, a ponto de detectar se o usuário do serviço gostou ou não do anúncio. Do resultado dessa análise os anúncios mais relevantes para o usuário, segundo algoritmos de Inteligência Artificial, começam a pipocar nas suas mídias sociais.

É lógico que muitos poderão dizer que o Facebook já tem dados suficientes de fotos de seus usuários para fazer o reconhecimento facial independente do desafio dos 10 anos, mas o que muitos especialistas de tecnologia da informação acreditam é que esse tipo de campanha, baseada em desafio, estimula a participação em massa dos usuários, o que ajuda bastante aos robôs realizarem uma melhor calibração da tecnologia de reconhecimento facial.

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Figura 4. O Desafio dos 10 Anos: você dando uma mãozinha à tecnologia de reconhecimento facial. Foto da Internet.

Ora, pense bem: em vez de o Facebook vasculhar bilhões de fotos de todos seus usuários para melhorar seu algoritmo de reconhecimento facial, por que não já receber num único post uma foto de seus usuários mostrando como está agora e como era há 10 anos? Facilita demais! Numa única análise o algoritmo de Inteligência Artificial poderá aprender sobre as mudanças faciais ocorridas em uma década na vida das pessoas. Interessante – e ao mesmo tempo assustador – não?

Podemos fugir disso tudo? Certamente não. Estamos realmente na era do big data. As empresas estão eufóricas em lucrar no que puderem com a gigantesca massa de dados que possuem das pessoas em todos os aspectos da vida: dos Apps nos smartphones às facilidades que temos com os meios digitais, como nossas instituições financeiras, nossos documentos oficiais e sites onde realizamos compras e consultas na Internet para nossas pesquisas relacionadas a estudos e trabalho etc. Não temos como evitar, mas podemos ser mais conscientes disso tudo, em vez de sermos tratados como zumbis.

E o que podemos fazer a respeito? Nem que seja o mínimo, se assim o quisermos, a partir da nossa forma de encarar tudo isso. Por exemplo: se não sou de modismo, por que entrar no tal desafio? Entendeu? Se você afirmar: “Eu não me importo com isso!”. Ótimo, então não há o que temer e aproveite a brincadeira. Mas se você não segue modismo e se perguntar: “Tem algo que eu possa fazer?”. Tem! Informe-se mais, leia a política de uso e privacidade dos produtos e serviços que utiliza. Aprenda mais sobre como personalizar o uso de seus aplicativos para que os mesmos atendam aos seus requisitos de privacidade, se esse é o seu objetivo.

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Figura 5. Como configurar a opção de Reconhecimento Facial do Facebook.

Na era da informação é muito importante se manter informado. Não usar um produto – em especial aplicativos e serviços online – sem conhecer sobre o seu desenvolvedor, sua política de uso dos dados obtidos e sua política de privacidade. Também é importante personalizar o aplicativo às suas exigências o quanto possível. E o mais importante: saber que tudo na grande rede é passível de rastreamento, então usar seus recursos com consciência e moderação não faz mal a ninguém.