O Preço Energético da Inteligência Artificial: Uma reflexão pessoal

Hoje, enquanto assistia ao nascer do sol da minha varanda e refletia sobre a quantidade absurda de energia que nossa estrela – o Sol – nos entrega a todo instante, não pude deixar de pensar o quanto nossa civilização – totalmente dependente da tecnologia – ainda luta para suprir uma demanda cada vez mais crescente por energia.

Em tempos de expansão e crescimento do uso da Inteligência Artificial (IA), o consumo cada vez maior de energia torna-se um desafio para as big techs, com grande impacto no aquecimento global.

Sim, o consumo de energia elétrica está crescendo no mundo todo. A previsão de crescimento para 2024 é de 3,3% – em 2023 o crescimento foi de 2% – segundo relatório do Mercado de Eletricidade da IEA (Agência Internacional de Energia). Mesmo com um crescimento líquido de aproximadamente 84% do uso de fontes renováveis – como hidrelétrica, solar, eólica e biomassa – em 2023, essas fontes representavam apenas cerca de 14% da matriz energética mundial. Você já parou para pensar no quanto a IA consome de energia?

A IA utiliza complexos algoritmos de aprendizado de máquina, especialmente aqueles de aprendizado profundo (deep learning), que exigem uma quantidade significativa de poder computacional. Para treinar modelos de aprendizado de máquina, é necessário processar grandes volumes de dados, envolvendo operações matemáticas complexas e repetitivas que demandam muito poder de processamento e, consequentemente, muita energia, por longos períodos. O treinamento de modelos complexos pode levar dias ou até semanas, durante os quais os recursos computacionais são utilizados continuamente.

A demanda por poder computacional é crescente e, por vezes, somente as CPUs das máquinas, por mais potentes que sejam, não são suficientes, exigindo a coparticipação das GPUs (unidades de processamento gráfico), que são mais eficientes para esse tipo de tarefa do que as CPUs tradicionais, porém consomem muita energia. E não se trata apenas do alto consumo de energia pelos computadores. A infraestrutura de data centers que hospedam os recursos computacionais precisa de sistemas de resfriamento e manutenção que contribuem para o consumo de energia associado ao uso da IA.

O alto consumo de energia pelo treinamento e uso de IA contribui para as emissões de carbono, especialmente se a energia utilizada provém de fontes não renováveis. Isso agrava o problema do aquecimento global, tornando-se um desafio prioritário para as big techs a busca por eficiência energética e a transição para fontes renováveis de energia.

Imagem gerada por IA

Então, como as big techs estão enfrentando esse problema?

Além de utilizar-se de parques eólicos e usinas solares, um acordo anunciado entre o proprietário da usina nuclear de Three Mile Island e a Microsoft permitirá a reabertura da usina para geração de energia que será comprada integralmente pela Microsoft pelos próximos 20 anos. O acordo da Microsoft para ajudar a reativar a usina nuclear de Three Mile Island está diretamente relacionado à necessidade crescente de energia para seus data centers, especialmente devido à expansão da IA. A Microsoft tem um compromisso de se tornar carbono-negativa até 2030. Utilizar energia nuclear, que é uma fonte de energia livre de carbono, ajuda a empresa a atingir esse objetivo.

Por sua vez, o Google tem investido significativamente em energia renovável, tendo anunciado em 2020 a compra de energia renovável suficiente para cobrir 100% de seu consumo anual de eletricidade. Curiosamente, também tem usado a própria IA para otimizar o consumo de energia em seus data centers. Os algoritmos de IA ajudam a prever e gerenciar a demanda de energia, melhorando a eficiência operacional. Apesar dos esforços, no entanto, a demanda crescente por IA tem levado a um aumento significativo no consumo de energia e, consequentemente, nas emissões de carbono.

A Amazon está adotando várias estratégias para suprir a crescente demanda de energia para suas operações de IA, prevendo investir quase 150 bilhões de dólares nos próximos 15 anos para expandir seus data centers, visando atender à explosão de demanda por aplicações de IA e outros serviços digitais. A AWS (Amazon Web Services) está comprometida em alcançar zero emissão líquida de carbono até 2040 e, para isso, está em fase de transição de sua infraestrutura para usar 100% energia renovável. Mesmo usando a própria IA para otimizar o consumo de energia em seus data centers, a demanda crescente por IA continua a representar desafios significativos com o aumento crescente de energia elétrica e, consequentemente, com o impacto ambiental.

Apesar dos investimentos em energia renovável e das iniciativas para otimizar o consumo, a demanda crescente por IA e serviços em nuvem continua a pressionar as empresas de tecnologia a buscar soluções mais sustentáveis. A questão é: até que ponto as empresas conseguem acompanhar esse ritmo acelerado de crescimento, sem comprometer seus objetivos de sustentabilidade?

E nós, como usuários finais, qual o nosso papel nessa equação?

Como usuários, podemos contribuir informando-nos sobre o impacto ambiental das tecnologias que utilizamos e compartilhando esse conhecimento com outros. A conscientização é o primeiro passo para a mudança.

Ao escolhermos produtos e serviços que priorizam a sustentabilidade, estamos incentivando as empresas a investirem em soluções mais limpas e eficientes. Ao mesmo tempo, é fundamental que as grandes empresas de tecnologia assumam um papel de liderança, investindo em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que minimizem o impacto ambiental da IA.

A energia nuclear, embora seja uma fonte de energia livre de carbono, apresenta desafios em termos de segurança e gestão de resíduos. É preciso buscar soluções inovadoras que combinem a eficiência da energia nuclear com a segurança e a sustentabilidade das fontes renováveis.

Voltando à minha reflexão inicial, acredito que o ideal seria que, em um futuro próximo, atingíssemos a classificação de Tipo I na Escala de Kardashev. Embora isso possa parecer utópico no momento, será um marco evolutivo significativo para nossa civilização quando ocorrer.

Reativando meu modo leitura com o Kindle

Redescobri um velho amor: a leitura. Sempre fui ávido por conhecimento em todos os campos do saber, e meu repertório de leitura vai desde livros técnicos em ciência, matemática e computação até ficção, filosofia, história, astronomia, autoajuda, crescimento pessoal, administração e espiritualidade.

No entanto, há algum tempo, deixei o hábito da leitura em segundo plano, ocupando meu tempo com atividades menos gratificantes: trabalho em casa, excesso de streaming, redes sociais etc. Resolvi dar um basta nessas distrações em prol de mais tempo para a leitura, como um retorno às origens.

Na reativação do meu ‘modo leitura’, a ânsia por devorar livros há muito enfileirados foi grande. Com tantos livros na fila, surgiu a dúvida: comprar livros físicos ou optar pelas versões digitais (ebooks)? Sem espaço nas estantes e visando a mobilidade e disponibilidade de leitura em qualquer lugar, como em viagens, por exemplo, optei pelos ebooks.

Já era usuário do Kindle via aplicativo da Amazon em meus dispositivos tablet e celular. Porém, nessa retomada ao universo da leitura, resolvi adquirir um e-reader Kindle, da Amazon, por ser o mais indicado para a leitura de livros digitais, proporcionando maior conforto – principalmente à noite – e sem os inconvenientes de um celular ou tablet.

Minha experiência com o Kindle tem sido impressionante. Na primeira semana de uso, já havia lido um livro inteiro e atingi metade da leitura de um segundo livro.

O Kindle realmente leva o prazer de leitura de ebooks a outro patamar. Sem comparação com o celular ou tablet. Seu peso, tamanho e características próprias tentam deixá-lo o mais próximo possível de uma experiência de leitura de um livro impresso.

Impressiona-me bastante a qualidade de leitura ao ar livre, na luz do sol. Parece, realmente, uma folha de papel impressa. Uma característica que adoro é a indicação – opcional – de exibir o tempo restante para o término do capítulo que estamos lendo, permitindo gerenciar o tempo de leitura e decidir por iniciar ou não o próximo capítulo. Acho esse recurso fantástico!

Outras características interessantes são a iluminação regulável, que nos permite ler no escuro ou em locais com baixa iluminação; a possibilidade de ajustar o tamanho e tipo da fonte, além do espaçamento entre as linhas e largura das margens; e o modo noturno, que inverte a cor de fundo com a fonte (de fundo branco com letras pretas para fundo preto com letras brancas), excelente para leitura noturna.

A possibilidade de carregar praticamente toda a nossa biblioteca no dispositivo e levá-la para onde formos foi um fator decisivo pelo qual escolhi o Kindle.

Com apenas uma semana de uso, a vontade de ler todos os meus livros que estão na fila de espera é grande. Considerando o tempo de leitura que agora me permiti, em troca de velhos hábitos com outras mídias, prevejo a leitura de vários outros títulos nos próximos meses.

O Kindle realmente me recolocou na trilha da leitura, um hábito que havia deixado um pouco de lado ultimamente. Estou adorando a experiência e recomendo a você, caso também goste de ler bastante. Experimente e redescubra o prazer da leitura!

Revelações Polarizadas de Sagitário A*

A astronomia é uma janela para o universo, um convite para desvendar os mistérios que se escondem nas profundezas do cosmos. Recentemente, a comunidade científica foi presenteada com uma descoberta que redefine nossa compreensão dos buracos negros, esses enigmáticos devoradores de luz. O protagonista desta história é o Sagitário A* (Sgr A*), o buraco negro supermassivo que reside no coração da Via Láctea.

A colaboração Event Horizon Telescope (EHT), um projeto que une cientistas de diversas partes do globo, capturou uma imagem sem precedentes de Sgr A* em luz polarizada, revelando a complexidade dos campos magnéticos que dançam em espiral em sua borda. Esta visão polarizada é uma estreia para Sgr A*, oferecendo uma nova perspectiva sobre a estrutura magnética que envolve a sombra do buraco negro.

A incrível e mais recente imagem do Sgr A*, capturada em luz polarizada.

A luz polarizada, invisível aos olhos humanos, é uma ferramenta poderosa para os astrônomos. Ela permite que eles estudem as propriedades do gás e os mecanismos que ocorrem quando um buraco negro atrai matéria para si. Através desta técnica, os cientistas conseguiram detectar campos magnéticos fortes e organizados que se estendem em espiral a partir da borda de Sgr A, um fenômeno que também foi observado no buraco negro M87, localizado no centro da galáxia M87.

A semelhança entre as estruturas magnéticas de Sgr A* e M87* sugere que campos magnéticos intensos podem ser uma característica comum entre todos os buracos negros. Além disso, a nova imagem de Sgr A* fornece indícios de um jato oculto, uma possibilidade que os astrônomos estão ansiosos para explorar mais a fundo.

Gigantesco: o diâmetro do Sgr A* equivale do diâmetro da órbita do planeta Mercúrio em torno do Sol (o pontinho branco no centro da imagem).

Os resultados publicados no The Astrophysical Journal Letters não apenas ampliam nosso conhecimento sobre Sgr A*, mas também abrem portas para novas perguntas. Como os campos magnéticos influenciam a dinâmica dos buracos negros? Qual é o papel desses campos na formação de jatos de matéria? E, talvez o mais intrigante, o que mais está escondido nas sombras desses gigantes cósmicos?

Aspecto das antenas com 6 metros de diâmetro do EHT, no Hawaii.

A dança dos campos magnéticos em torno de Sgr A* é um lembrete de que ainda há muito a ser descoberto. Cada nova imagem e dado coletado nos aproxima de respostas para algumas das perguntas mais fundamentais sobre o universo. E enquanto os astrônomos continuam a observar e a teorizar, nós podemos apenas maravilhar-nos com a complexidade e a beleza do ballet cósmico que se desenrola diante de nós, mesmo que seja através dos olhos da ciência.

A oposição de Júpiter

Hoje, 3 de novembro de 2023, o maior dos planetas do sistema solar – Júpiter – está em oposição ao Sol, sendo o melhor momento do ano para observá-lo a olho nu. Este evento ocorre a cada 13 meses. Embora hoje seja o melhor dia, pela oposição e consequente maior proximidade, ainda será possível ver o planeta a olho nu durante todo o restante do ano.

Aspecto de uma oposição: a Terra fica entre o Sol e o planeta, formando uma linha reta.

Em minha cidade o planeta já aparece com certa elevação no horizonte leste desde o pôr do Sol e, ao longo da noite, se encaminhará para a região oeste, onde deixará de ser visível por volta das 5 horas da manhã.

Planeta Júpiter em oposição no céu de Mossoró em 3/11/2023. Registro realizado com uma câmera Sony DSC-RX100 sem aplicação de zoom.

Júpiter brilhará com uma magnitude de -2.9, tornando-o um dos objetos mais brilhantes no céu, sendo facilmente visível a olho nu, mas para quem tem a oportunidade de usar um telescópio será possível observar as luas e características do planeta, como por exemplo, a famosa Grande Mancha Vermelha.

Júpiter, o maior dos planetas do Sistema Solar, em oposição ao Sol na noite de 3/11/2023.

Não perca, portanto, essa oportunidade de contemplar a beleza de nosso céu noturno. Olhe para o céu!

Atualização de software interestelar: a incrível missão da NASA com as Voyagers

Como desenvolvedor sei bem como é aplicar um patch num software em produção. Nesse tipo de situação temos que agir para detectar, corrigir e implementar a atualização o quanto antes e com o menor impacto possível aos usuários. No meu caso, a disponibilização de um patch é extremamente simples e rápida – na casa dos segundos – uma vez que a distância entre mim e o computador servidor é cerca de 6 km apenas.

Dito isso, você imagina como seria atualizar um software em um computador localizado a mais de 24 bilhões de km da Terra? Isso é mais de 160 vezes a distância entre a Terra e o Sol!

Representação da sonda Voyager no espaço profundo com o Sol ao fundo, distante mais de 24 bilhões de quilômetros.

Essa é a missão na qual uma equipe de engenheiros de software da missão Voyager da NASA está trabalhando. Os esforços é para ajudar a estender a vida útil de nossos exploradores interestelares – as espaçonaves Voyager – e garantir que ambos continuem a explorar o espaço interestelar nos próximos anos.

A equipe da NASA está carregando um patch de software para evitar a recorrência de uma falha que surgiu na Voyager 1. Essa atualização tem como objetivo evitar que o problema ocorra novamente na Voyager 1 ou surja em sua gêmea, a Voyager 2.

Em 2022, a Voyager 1 começou a enviar relatórios de status distorcidos, apesar de continuar operando normalmente. Os engenheiros da missão levaram meses para identificar o problema, que fazia com que o sistema de articulação e controle de atitudes da nave direcionasse comandos incorretamente, escrevendo-os na memória do computador em vez de executá-los. Um desses comandos perdidos acabou distorcendo o relatório de status do sistema antes que ele pudesse chegar aos engenheiros, aqui na Terra.

Aspecto do Centro de Controle das Missões Voyagers na NASA em 1977.

A equipe determinou que o sistema havia entrado em um modo operacional incorreto; no entanto, eles não conseguiram determinar a causa e, portanto, não têm certeza se o problema pode surgir novamente. O patch do software deve impedir isso.

“Este patch é como uma apólice de seguro que nos protegerá no futuro e nos ajudará a manter essas sondas funcionando o maior tempo possível. Essas são as únicas espaçonaves a operar no espaço interestelar, então os dados que eles estão enviando de volta são excepcionalmente valiosos para nossa compreensão de nosso universo local.”

Suzanne Dodd, gerente de projeto da Voyager do JPL

Pelas distâncias, as instruções do patch levarão mais de 18 horas para viajar até as espaçonaves. Por causa da idade das espaçonaves e do tempo de atraso de comunicação, há algum risco de que o patch possa substituir o código essencial ou ter outros efeitos não intencionais. Para evitar riscos, os engenheiros de software da NASA passaram meses escrevendo, revisando e verificando o código. Como precaução de segurança adicional, a Voyager 2 receberá o patch primeiro e servirá como um banco de testes para sua irmã gêmea. A Voyager 1 está mais longe da Terra do que qualquer outra espaçonave já construída pela humanidade, tornando seus dados mais valiosos.

O upload do patch, realizado em outubro de 2023, será seguido de uma leitura da memória do sistema para garantir que ele esteja no lugar certo. Se nenhum problema imediato surgir, a equipe emitirá um comando para ver se o patch está funcionando como deveria.

Aspecto atual do Centro de Controle de Missões da NASA.

É verdadeiramente impressionante pensar que a NASA é capaz de transmitir dados entre a Terra e as sondas Voyager a uma taxa de apenas 160 bits por segundo, sendo que seus computadores possuem 50 anos de idade e se afastam de nós a incríveis 16 km/s em média!

Para mim, isso é um testemunho do incrível avanço da tecnologia e da engenhosidade humana, uma vez que, mesmo a uma distância tão grande, somos capazes de manter uma linha de comunicação e continuar a aprender mais sobre o nosso universo. É um feito notável que continua a inspirar minha admiração e respeito pela exploração espacial. E você, o que acha disso?

Fonte: NASA