Inteligência Artificial: a exterminadora de privacidade

A Internet – ainda – é um território livre, mas está cada vez mais acirrada a briga entre as gigantes do setor para “conhecer os hábitos” do internauta a ponto de invadir sua privacidade usando-se de argumentos aparentemente revolucionários e que trarão sempre vantagens para as pessoas.

O problema é que toda evolução tecnológica desenvolvida sob pretextos nobres no mundo virtual tem um propósito financeiro e de domínio do setor, sendo imposta ao usuário – sempre em conta gotas para uma melhor absorção e sem grande percepção. Mas será que realmente o objetivo é realmente nobre? Será que precisamos realmente de uma intervenção tão presente em nossas vidas, em tudo que fazemos, mesmo nas coisas mais despropositadas, como uma simples navegação pela Internet? Eu penso que não, e chego a me assustar com tamanho avanço que o ser humano atingiu no desenvolvimento da Inteligência Artificial – IA – num espaço de tempo tão curto e aplicado ao mundo virtual no qual estamos apenas engatinhando – a Internet como conhecemos tem apenas 20 e poucos anos.

Não sejamos ingênuos. Sabemos que estamos expostos desde o primeiro momento que entramos na nuvem da Internet. Desde o nosso endereço virtual – o número IP de nossos dispositivos no momento que estamos conectados, aliado ao GPS, que permite saber em que parte do planeta estamos – até aquilo que desejamos expor conscientemente através de nossas redes sociais – e também de forma inconscientes, quando nos rendemos às tentações do “saiba aqui o significado do seu nome” ou mesmo “encontre aqui a sua cara metade”, tudo o que fazemos na nuvem pode ser medido, analisado, espionado e, com certeza, armazenado – inclusive com a tecnologia atual tudo quanto é informação já pode ser totalmente armazenada, sem a necessidade de descartar nada, por mais insignificante que possa parecer a informação. É o preço que se paga para ter em troca o mundo ao toque da tela de nossos dispositivos, mas daí estarmos a mercê de robôs cada vez mais inteligentes, analisando tudo que publicamos – e até mesmo o que pensávamos em publicar e que acabamos desistindo ou mesmo imaginar o que estamos a escrever – é algo realmente intimidador, no mínimo.

Esta semana, uma das gigantes da Internet atual – o Facebook – anunciou o seu “robô” com Inteligência Artificial, chamado DeepText.

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Figura 1 – DeepText é o novo robô com Inteligência Artificial desenvolvido pelo Facebook.

Segundo a empresa, o texto é a forma predominante de comunicação no Facebook – daí o uso cada vez maior de aplicativos de troca de mensagens como Skype, WhatsApp, Telegram, Viber, Messenger e outros –, então é importante para a companhia compreender as várias maneiras que o texto é usado nos seus produtos – rede social e o Messenger – e como isso poderá ajudar a melhorar a experiência das pessoas com seus produtos. Uma das vantagens, segundo o Facebook, seria até mesmo a eliminação de Spam na rede social.

O DeepText é um robô com IA avançada, desenvolvido para cada vez mais compreender e aprender, com base no texto digitado pelos usuários, com precisão quase humana – reparem bem: precisão quase humana – o conteúdo de milhares posts por segundo, abrangendo inicialmente mais de 20 idiomas.

A tecnologia DeepText já está sendo testada em algumas experiências de Facebook. No caso do Messenger, por exemplo, DeepText será usado para obter uma melhor compreensão de quando alguém pode querer ir a algum lugar.

Também estão começando a usar modelos de DeepText de alta precisão e multi-linguagem para ajudar as pessoas a encontrar as ferramentas certas para sua finalidade. Por exemplo, alguém poderia escrever um post que diz: “Eu gostaria de vender minha bicicleta velha por R$ 200, alguém interessado?”. DeepText seria capaz de detectar que o post é sobre a venda de algo, extrair as informações significativas, tais como o objeto que está sendo vendido e seu preço e pedir ao vendedor para usar as ferramentas existentes que facilitam essas transações através do Facebook.

O DeepText tem o potencial para melhorar ainda mais a experiência do Facebook em compreender as mensagens cada vez melhor para extrair a intenção, sentimento e entidades (por exemplo, pessoas, lugares, eventos, etc.), usando sinais contraditórios de conteúdo como texto e imagens, e automatizando a remoção de conteúdo censurável como spam.

E o projeto do Facebook não para por aí! Os próximos passos do DeepText são:

Interesse em melhor compreender as pessoas
Compreensão conjunta do conteúdo textual e visual
Novas arquiteturas de rede neural profunda

Empresas como Google, Facebook e Microsoft investem pesado em evoluir a capacidade de as máquinas pensarem.  Do outro lado, há os que veem um risco sério na evolução desenfreada da IA, que poderia colocar em risco o futuro da humanidade. O físico Stephen Hawking, por exemplo, vê sérios riscos no desenvolvimento de inteligência artificial além do patamar que temos atualmente. Segundo o cientista, formas primitivas de inteligência artificial criadas até hoje são comprovadamente úteis – ele mesmo se comunica atualmente através de um sistema baseado em IA – mas ele teme as eventuais consequências de se criar algo que possa superar o pensamento do ser humano, acreditando que isso poderá evoluir por si mesmo e se redesenhar de forma contínua e crescente, superando inclusive a lenta evolução biológica dos seres humanos, que não poderiam competir de igual pra igual e, portanto, logo seriam sobrepostos.

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Figura 2 – O físico Stephen Hawking mostra-se preocupado com o avanço da Inteligência Artificial além dos moldes atuais.

A coisa é séria! O próprio Google decidiu tomar precauções, caso suas máquinas se rebelem! A DeepMind, adquirida pela companhia em 2014 e que se tornou seu braço de IA, criou medidas de segurança para que operadores humanos possam, em caso de necessidade “tomar controle de um robô que não esteja se comportando e que possa causar consequências irreversíveis”. Smiley surpreso

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Figura 3 – Ilustração baseada no filme: O Exterminador do Futuro.

Imaginar que chegamos ao ponto de a vida imitar a arte ao nível do filme “O Exterminador do Futuro” é algo, realmente, assustador não? O que você acha a respeito? Deixe sua opinião a respeito aqui no site.

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O absolutismo da ciência e o sensacionalismo da imprensa

“Físico recua e nega existir buraco negro”, afirma a manchete um tanto “sensacionalista” de um importante meio de comunicação em sua seção sobre ciência, publicada em 29/01/2014.  Isso, logicamente, chamou a minha atenção para uma leitura aprofundada sobre o assunto, que muito me fascina há anos.

A matéria aborda uma recente publicação online de um artigo do famoso físico Stephen Hawking, da Universidade de Cambridge, onde o mesmo revisa sua teoria sobre o ‘horizonte de eventos’, que é uma espécie de fronteira próxima a região de buracos negros onde, uma vez atingido, nada escaparia de ser “engolido” pelo buraco negro; nem mesmo a luz!

Só pra entendermos, antes de continuar, um buraco negro é uma região do espaço da qual nada, nem mesmo objetos que se movam na velocidade da luz – e nem mesmo a própria luz (daí o nome buraco negro), podem escapar.  Este é o resultado da deformação do espaço-tempo, causada após o colapso gravitacional de uma estrela milhares de vezes maior que o nosso Sol ou por uma matéria astronomicamente maciça e, ao mesmo tempo, infinitamente compacta e que, logo depois, desaparecerá dando lugar ao que a Física chama de ‘Singularidade’, o coração de um buraco negro, onde o tempo para e o espaço deixa de existir. Smiley piscando

Continuando…

Na verdade o famoso físico, em seu recente artigo científico, tenta apenas pôr um ponto final numa discussão que se arrasta há décadas na comunidade científica e que tem se tornado o maior desafio científico da Física: unificar a Teoria da Relatividade (que explica o mundo extraordinariamente grande) com a Mecânica Quântica (que explica o mundo extraordinariamente pequeno).  Ou seja, o cientista está revisando sua teoria, muito provavelmente baseado em novos dados e novas evidências, pra não dizer também em novas intuições, pois o mesmo é um físico teórico.

Pela Teoria da Relatividade, por exemplo, um astronauta que tivesse o azar de cruzar o ‘horizonte de eventos’ seria puxado como um espaguete para dentro do buraco negro, emitindo, para o lado de fora do ‘horizonte de eventos’ apenas partículas que escapariam como forma de radiação; radiação essa teorizada por Hawking no passado e que ficou conhecida como radiação Hawking. Essa radiação evaporaria lentamente até desaparecer.

Na época da teoria do buraco negro e do horizonte de eventos a inserção do elemento ‘radiação Hawking’ era necessária para poder encaixar a teoria dentro da segunda lei da Termodinâmica, que prevê que a entropia (desordem) de um sistema nunca pode diminuir, ou seja, se o buraco negro engolisse algo sem devolver nada, a entropia do Universo como um todo estaria comprometida e a conta não fecharia.

Logicamente, à época da teoria do buraco negro, horizonte de eventos e radiação Hawking, a comunidade científica ficou dividida (como acontece até hoje), com um grupo de cientistas apoiando a ideia enquanto outro grupo divergia da mesma, até mesmo apresentando questionamentos a respeito do resultado de uma possível radiação Hawking na forma como a mesma fora teorizada.

Assim contra-argumentou, na época, o físico Joseph Polchinski, do Instituto Kavli, defendendo que – pela Teoria da Relatividade – o mesmo astronauta que atravessasse o horizonte de eventos seria puxado para dentro do buraco como um espaguete, mas que – pela Mecânica Quântica – a radiação Hawking não se dissiparia simplesmente, mas sim formaria uma espécie de muralha de fogo no entorno do horizonte de eventos e, desta forma, o astronauta seria queimado, e não puxado para dentro do buraco.

E agora? Ou uma coisa ou outra! Smiley confuso 

Entra novamente na discussão a necessidade da ciência encontrar a forma de as duas teorias conversarem, o que seria o Santo Graal da ciência, ou o que ficou mais popularmente conhecida como a ‘Teoria de Tudo’, do inglês ‘Theory of Everything’, que buscaria unificar, conectar e explicar numa única estrutura teórica os fenômenos físicos, com um único tratamento lógico e matemático.  Mas isso é assunto pra uma outra oportunidade. Smiley nerd

Voltando… na nova teoria proposta por Hawking em artigo no site ArXiv, o mesmo tenta apenas mudar elementos de sua compreensão inicial a respeito de buracos negros, no caso o horizonte de eventos que deixa de existir, sendo substituído por um ‘horizonte aparente’, que seria uma espécie de superfície que pode capturar a luz, mas também pode mudar de forma por conta de flutuações quânticas, possibilitando que ela escape. Pronto, explicado!

Agora Hawking defende que a ausência de um horizonte de eventos significa que não existem buracos negros no sentido de antes, ou seja, sistemas dos quais nem a luz conseguiria escapar.  O buraco continua lá, mudou-se apenas a definição.

Explica melhor o físico: “Não há escapatória para um buraco negro na teoria clássica”. Entretanto, a Mecânica Quântica “permite que energia e informação escapem de um buraco negro”. Para resolver definitivamente o problema, só unificando as teorias e isto é um problemão que intriga os cientistas há quase um século.

Pra finalizar Hawking reconhece que, assim sendo, “a explicação correta permanece um mistério!”.

A conclusão que tiro do artigo científico e do artigo jornalístico é que a ciência tá longe, muito longe, de saber e poder explicar tudo que pensa que sabe. Estamos apenas engatinhando no conhecimento sobre o nosso universo macroscópico e microscópico e cada nova descoberta revela um mundo de novidades “extraordinárias” ao nosso tempo, desmascarando um tanto de afirmações que no passado eram tidas como verdades absolutas e imutáveis. Assim é a ciência e a sua limitação no ‘horizonte de eventos’ que é capacidade da mente humana.

Por outro lado está a imprensa e os meios de comunicação que sempre buscam o lado sensacionalista da informação, gerando na verdade uma desinformação para um público geralmente desprovido de conhecimento sobre diversos assuntos, em especial os que dizem respeito às ciências como Matemática e Física, pois o que realmente parece importar é vender a ideia que se deseja, defendida pelo próprio órgão de comunicação como um todo ou por um de seus respeitados profissionais da informação. 

Tenhamos cuidado. Sejamos mais analíticos, pois, como vemos, um buraco negro não pode deixar de existir de uma hora pra outra, né? Smiley sarcástico